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Em continuidade ao post passado, a respeito do projeto em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), segue a segunda parte da Oficina. Matéria originalmente publicada no site do projeto.
A tarde do primeiro dia (04/08/2008) foi o momento de discutir o projeto Podáali, cujo objetivo é criar oportunidades para a valorização, registro e transmissão de conhecimentos sobre músicas e danças tradicionais pelos Baniwa do Alto Rio Negro. No projeto foram previstas duas atividades principais: a construção da maloca na comunidade Itacoatiara Mirim e a expedição para o resgaste das flautas sagradas na extinta comunidade de Camarão, no alto rio Ayari. (Leia no final do texto, as considerações de Eduardo Viveiros de Castro sobre as atividades apresentadas).
Os particiantes formaram três grupos de trabalho, cuja composição não foi aleatória. O GRUPO 1 foi formado por integrantes majoritariamente não-Baniwa, que moram na comunidade de Itacoatiara-Mirim. Eles ficaram responsáveis por discutir a atividade da construção da maloca. O GRUPO 2 contou com baniwas que vivem na comunidade Itacoatiara-Mirim para discutir a atividade do resgaste das flautas sagradas. E o GRUPO 3 foi composto, majoritariamente, por baniwas do rio Içana, da escola Pamáali e também discutiram a atividade do resgate das flautas sagradas. As perguntas norteadoras foram as seguintes: Qual a importância dessa atividade para a cultura Baniwa? Quais os conhecimentos necessários para realizar essa atividade? O quê deve ser divulgado no filme?
Os resultados dos grupos foram esquematizados abaixo:
GRUPO I – MALOCA A MALOCA é importante para o povo Baniwa para promover encontros de vários povos indígenas para troca de presentes entre outras etnias Tucano, Baniwa, Dessano ou entre parentes com peixe, frutas e outros. Para a construção da maloca é primeiro preciso conhecer o benzimento para benzer o terreno e o local onde será construído a maloca e depois benzer os materiais que serão utilizados como palha, esteio, cipó, casca de pau, paxiuba, etc. Depois de um ano depois de pronta, é preciso ter dentro da maloca materiais como Japurutu, cariçu, colares para distribuição na hora da dança. O cacique faz uma pequena confraternização e depois é liberado para o público para utilização. Deverão ser divulgado no filme danças, dabucuri e comemorações tradicionais. A filmagem só poderá ser feita por outras pessoas com autorização do cacique.
GRUPO II – FLAUTAS SAGRADAS – BANIWAS DE ITACOATIARA-MIRIM A expedição para a cultura Baniwa sera uma marca na história dos povos indígenas Baniwa a ser divulgado no Brasil e no exterior com reconhecimento. Além disso o povo Baniwa d Itacoatiara-Mirim estará distribuindo CDs e DVDs para cada comunidade indígena do Rio Içana e do rio Ayari, principalmente para as escolas indígenas. Todos serão treinados antes do resgate das flautas sagradas que estão na comunidade de Camarão no rio Ayari e a eles serão repassadas as regras sobre o conhecimento das flautas sagradas para não haver nenhum problema com as outras comunidades que ainda praticam esse tipo de ritual de flautas sagradas. Sabemos que a partir do momento que um grupo mostra as flautas sagradas, todos os que adotam as mesmas práticas são prejudicados. Para que isso não aconteça é que pensamos em distribuir os DVDs para todas as comunidades Baniwa para eles verem que estamos mostrando apenas o som, mas não as flautas, nem como elas são feitas. A comissão da comunidade Itacoatiara-Mirim irá preparar uma aldeia no Igarapé de Camarão, onde será construído um modelo de casa do conhecimento onde serão recebidas as flautas sagradas e as casas onde serão hospedados o pessoal da expedição. Essa parte poderá ser filmada livremente, sendo que a mulher não poderá usar mais a câmera filmadora para que os instrumentos sejam filmados de acordo com as regras estabelecidas pelos mestres baniwa. Uma iniciação será filmada somente para a comunidade Itacoatiara-Mirim, que não será divulgada no filme.
GRUPO III - FLAUTAS SAGRADAS – BANIWAS DO RIO IÇANA É importante o resgaste porque poderão trabalhar como trabalhavam antigamente e a nossa cultura será fortalecida. Nakapale – flautas sagradas. Com essas flautas sagradas podermos fortalecer as regras antigas dos Baniwa.
A equipe tem que conhecer as regras do local. Como eles já falaram, eles tem que conhecer as regras. Todas as atividades que podem ser assistidas em público (com crianças, jovens, mulheres) podem ser divulgadas no filme.
A leitura que Eduardo Viveiros de Castro fez das apresentações revela que, de um lado, a Maloca representa a comunidade inteira e envolve pessoas de outras etnias. De outro, há a busca das flautas, que consistem em uma tecnologia de educação para que as novas gerações possam se manter vinculadas. Avaliou o professor: “A idéia de usar a tecnologia do branco para reforçar tecnologia das flautas, fazer com que uma ajude a outra e não com que uma destrua a outra é muito importante porque, até uns vinte anos atrás, a idéia dos brancos era a de que tinha que entrar uma nova tenologia, os índios tinham de aprender a ler e escrever, para poder esquecer o resto. Eles tinham de virar brancos. Demorou muito para perceber que se podia usar a imagem, a escrita, a filmagem, o computador, não para esquecer, mas para lembrar as tradições, as origens, as coisas históricas que queriam que os índios esquecessem. É muito importante que esse projeto faça a ligação entre a tecnologia mais avançada (cópia, imagens, sons) e a manutenção relações tradicionais indígenas. A gente vê que essa tecnologia não é suficiente, porque não basta filmar, gravar, é preciso ter as coisas originais em seu devido lugar.”
por Arthur Protasio |
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