• Decisão da OMS sobre Patentes e Acesso a Medicamentos


    Entrevista originalmente publicada no site da Agência de Notícias da Aids.

    O reconhecimento, por parte da Organização Mundial de Saúde (OMS), dos
    efeitos negativos dos direitos de propriedade intelectual sobre o acesso
    a medicamentos foi o principal assunto a repercutir na 61ª Assembléia
    Mundial de Saúde, segundo o PN. O item consta da Estratégia Global do
    Grupo de trabalho Inter-governamental sobre Saúde Pública, Inovação e
    Propriedade Intelectual (IGWG), aprovado no encerramento da Assembléia,
    em Genebra (Suíça), no último dia 24 de maio. “O ministro da Saúde,
    Temporão, anunciou em discurso que o Ministério vai contribuir com
    recursos financeiros para que a OMS possa cumprir esse papel (de
    auxiliar países na licença compulsória, pesquisa e desenvolvimento)”,
    comentou a Dra. Mariângela.

    Confira a entrevista a seguir.


    Agência de Notícias da Aids (AA) – A OMS reconheceu durante a 61ª
    Assembléia Mundial os efeitos negativos dos direitos de propriedade
    intelectual sobre o acesso aos medicamentos. Quais as considerações que
    a senhora faz sobre essa decisão?

    Dra. Mariângela – O Programa de Aids estava na Assembléia, nós
    participamos ativamente desse grupo de trabalho da delegação brasileira.
    Tivemos uma pessoa envolvida full-time nessa atividade que culminou com
    essa resolução. O grande ganho é o reconhecimento do papel da OMS em dar
    apoio aos países que necessitam fazer uso do licenciamento compulsório.
    Isso é inédito. Para nós, é tão importante quanto foi a declaração de
    Doha e Trips (Acordo sobre Direitos de Propriedade Intelectual
    relacionados ao Comércio ) em saúde pública. É um novo marco em
    propriedade intelectual. O ministro Temporão anunciou que o Ministério
    da Saúde do Brasil vai contribuir com recursos financeiros para que a
    OMS possa cumprir esse papel. Isso afeta toda pessoa com doença crônica,
    com certeza absoluta. A inovação está sempre relacionada ao alto custo.

    AA – Como o Brasil participou nessa resolução?

    Dra. Mariângela – Em 2005, na 59ª plenária, foi decidido a organização
    de um grupo de trabalho intergovernamental para tratar das questões de
    saúde pública, inovação e propriedade intelectual, chamado de IGWG. No
    primeiro ano, em 2006, o IGWG foi muito devagar. Então, em 2007, o
    Brasil apresentou uma proposta que causou mais negociações e discussões,
    inclusive dos países opositores. A idéia era sobre a OMS tomar a
    dianteira e liderar esse processo neste assunto. O objetivo foi
    apresentar uma proposta de trabalho para esse grupo, uma estratégia
    global, para os países poderem contribuir, de modo que a gente chegasse
    na Assembléia desse ano com uma resolução para ser aprovada. Isso foi
    muito discutido no ano passado e aconteceu: a resolução do Brasil foi
    aprovada nesse ano, apesar das fortes oposições, inclusive dos Estados
    Unidos. Anteriormente, o IGWG se reuniu diversas vezes, inclusive os
    países da América Latina e do Caribe se encontraram aqui no Brasil, a
    convite do governo, para discutir esse documento.

    AA – Nesta semana, a Abia divulgou carta cobrando o governo sobre a
    produção nacional do Efavirenz, que teve licenciamento compulsório há um
    ano. Como a senhora recebeu isso?

    Dra. Mariângela – A posição do PN é clara: a licença compulsória teve o
    objetivo de reduzir o gasto com o Efavirenz e o benefício secundário é a
    possibilidade da produção nacional – uma questão que se resolve em médio
    e longo-prazo. Farmanguinhos e Lafepe estão em fase de desenvolvimento
    do medicamento no Brasil. O que digo em relação a isso é que garantimos
    o abastecimento dos medicamentos e a boa qualidade. A expectativa é que
    no futuro exista um medicamento nacional. O País está procurando
    desenvolver esse fármaco, novo para nós, desde a matéria-prima até o
    produto acabado, de modo que a gente possa dominar a produção do começo
    ao fim. Isso é muito diferente do que comprar a matéria prima da Índia e
    desenvolver aqui. O governo busca uma autonomia maior, mas em processos
    mais verticalizados e o Efavirenz é um caso específico. Volto na
    questão, o objetivo da licença foi garantir a compra mais barata. A
    gente gastava 13% do nosso orçamento com um anti-retroviral importado e
    hoje 4%. O objetivo de médio prazo é essa produção nacional.


    AA – Outro questionamento da Abia era se o País poderia produzir
    remédios com patentes próximas do vencimento. O Brasil está preparado?

    Dra. Mariângela – Tem uma questão a ser avaliada sempre sobre as
    patentes que vão expirar. É a relação delas com o número de pacientes
    que utilizam os remédios. Na medida que existam versões genéricas que
    poderão ser compradas, porque o número de pacientes é pequeno, esse tipo
    de medicamento não vai ser produzido no Brasil. Mas, quando falamos de
    uma droga que é muito usada, o Farmanguinhos tem várias linhas de
    desenvolvimento, incluindo anti-retrovirais. O Brasil está se
    preparando. Curto-prazo para mim é daqui a seis meses, patentes que
    expiram nesse período, e existem algumas para um pequeno número de
    pacientes, o Brasil não tem intenção de começar a produzir. Agora, não
    sei qual é o curto-prazo da Abia. A gente conhece outras patentes de
    medicamentos de largo uso no Brasil que vão expirar a curto-prazo, mas é
    sempre interessante ter condições de produzir aquilo que é estratégico e
    acessar medicamentos de alta qualidade a um custo mais baixo.


    AA – Em Genebra, a senhora defendeu a eliminação de barreiras que
    impedem a entrada de soropositivos em diversos países. O que poderia ser
    feito pra acabar com isso?

    Existem dois tipos de barreiras. A primeira é aquela para pessoas que
    estão visitando os países, seja a trabalho ou turismo. Depois, tem o
    outro tipo, que é imposta para fins de imigração. Estou participando de
    um grupo de trabalho do Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas para
    o combate ao HIV/Aids) que estuda essas duas coisas. Vai ter ainda um
    fórum específico sobre isso no Ungass e na Conferência do México. As
    questões de imigração são mais complexas porque essas barreiras não
    dizem respeito somente à pessoa portadora do vírus HIV, mas a todas com
    doenças crônicas. Os países não permitem a entrada de pessoas que têm
    Aids, barram também o renal crônico, o paciente que tem câncer ou outra
    patologia de impacto no sistema de saúde. Isso vai ter que ser alvo de
    muitas negociações e não é um caso forte na América Latina, praticamente
    não existe esse problema. Mas, na região, por exemplo, do sudeste
    asiático, na China, e nos países árabes existem essas exigências de
    pessoas que vão trabalhar ou morar num determinado país. As pessoas
    fazem o teste na entrada e podem ser mandadas de volta. Esse ano, em
    setembro, uma conferência mundial sobre migração, nas Filipinas, terá
    esse tema.